domingo

Lo tengo todo en un pen drive

Ensaiei sair só pela noite: ensaiei por semanas. Por fim sai num domingo, sem muitas pretensões. Por casualidade, invitei ao boy de um amigo, que aceitou de pronto; queria desabafar.
Entre comida e cerveja, verdadeira e justa, dei minha opinião mais franca, mesmo na dúvida se era o que ele queria ouvir ou não. No início me senti usada, mas depois só aceitei minha missão humana de ajuda em um momento difícil.
Ele se foi; sigo na mesa. Peço mais uma cerveja, e percebo que o casal ao lado está discutindo, sem muitos pudores, uma conversa onde ela acusa traições, negligências, e menciona que as provas estão todas em um pen drive. Ele murmureia, cabisbaixo, e nega.
Embuída de retórica inútil, me pergunto por que os homens mentem, por que são covardes, por que as mulheres se fazem de cegas e crédulas... relações de descontentes, de inconformes, cheias de silêncios e repetições. Tell me, tell me, Riddler, Riddler.
Me pergunto mas sei das respostas, e sei das causas.

Saio do bar, encorajada pela bad de Fake Plastic Trees que começa a tocar; o casal continuou discutindo; deixei um resto de cerveja. Caminho diretamente para tomar um táxi, que passa livre e me acena swingeando o dedo, dizendo que não pararia. Xingo, mostro o dedo do meio, y me quedo um minuto mais nessa esquina, e decido voltar ao bar para ir ao banheiro.
Nessa névoa, nessa brisa de Domingo + cerveja, vou caminhando em direção a uma rua possivelmente conhecida, com um leve receio no peito de ser assaltada ou de algo me passar. A verdade é que nada nunca me acontece - sempre desconfiei que é o resultado exitoso de malandragem, rua, bar e pensamento positivo.
Há um encanto em caminhar por ruas de forma desplanejada e inesperada, ainda que atenta e esperta a todos os ângulos e atitudes suspeitas. Essa é a manha, a arte para se andar na rua - manha criada em Sampa.

Caminho certa de tomar o 168, ainda que esteja cheio de gente desesperançada, pobre e muda. Mas topo de cara com a parada do 90, um antigo ônibus que tomava para ir para os lados de Villa Urquiza, quando fazia nesse bairro, um curso de leitura de Tarot.
O 90 é um daqueles ônibus de caminho desgraçadamente largo, mas de surpresas, guardadas só para aqueles que estão atentos e abertos. Em um trajeto de 01h30, ele cruza quase que metade de Buenos Aires passando pelos bairros mais subestimados e escondidos: Almagro e seus rincones, La Paternal, Chacarita e Villa Urquiza, chegando quase no limite com a província.
Tenho carinho imenso pelo recorrido desse ônibus: caminhos e paisagens que o metrô jamais poderia proporcionar.

Subo então no 90, na ideia e na segurança de descer perto de casa. Peço a tarifa ao motorista, e me escoro em uma dessas estruturas próprias para a bunda dos observantes-flamboyants. Revejo com carinho meus rincones favoritos de Almagro, entre eles o cruze da calle X e X, onde há um pequeno jardim suspenso. Muros e paredes imensas esperando murais, pixos e graffitis; muros que separam trilho + trem, de rua + casas. Repito: só para loucos, só para flamboyants.

A vida oferece pequenos deleites, pequenos mas especiais para os sensíveis. Reconheço que toca Dire Straits; logo após Money For Nothing entra Brothers In Arms, álbum e tema que ouvi tantas vezes no escuro do quarto da casa de minha mãe. E vou, levada por imaginação & som, enquanto nos acercamos da Plaza Miserere.
Mudamente canto junto, acolhida e agradecida por me encontrar e pertencer à decadência.

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04/Jun/2017 - Buenos Aires, Argentina - 21h17

D'o que eu quis

Quis ser Louca, andarilha na posse de uma rosa e uma trouxa;
Livre passaporte, uma junkie,
do Sub-Mundo, uma transitante.

Quis ser poeta de Luas, que corre em águas profundas;
Bruxa, um pacto com a Natureza, leitora intima das Cartas.

Quis ser amante e amada profundamente,
Por cada ferida, por cada beleza, por cada dor, por não ser pré-feita.

Quis ser Livre, com um passarinho azul que voa pra longe,
que retorna quando quer;

Viajante, forasteira constante, perdida em selvas e cidades,
Mas talvez só por instantes.

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28/Maio/2017 - 18h35 - Buenos Aires, Argentina




quinta-feira

Carta.

Esse foi meu presente de aniversário de 2013.
Entre sorte e esquemas, estive aí. Não tenho muitas lembranças: estava bastante high, e emocionada. Bêbada também. Nunca toquei no meu celular (obrigada tia Leila por registrar).
Nessa void meio torpe, vivi sua apresentação, e me entreguei com seus temas.

Só a música pode resignificar minha existência; pode traduzir o buraco negro, e percalçar o processo de desmantelamento, e reconstrução.
Por isso um pouquinho de mim se foi, ainda que existirá sempre agradecimento, e conforto nesse meu reconhecimento em você; acolhimento.

Me dói pensar que há dores e abismos muito particulares, e que a sensibilidade como um dom, pode ser um fardo também. Seguimos remando meio inadequados. Faço parte.

I was dwelled and comforted many times by your melodies, by your introspection.
Hope that you can feel the love vibrated by many in your sweet memory today. And feel embraced. <3
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25/Maio/2017 - 21h12 - Buenos Aires, Argentina


Chris Cornell, 13/06/2013 - Best of Blues, São Paulo























segunda-feira

Azul Buk

A tristeza é um pássaro azul que levo guardadinho no peito.

Meu amigo não pode vê-lo, pois ele é um refém, amedrontado.
Minha mãe não o ouve cantar; ele só fala comigo, na calada da noite.

Mas meus amantes todos o intuem, baixinho e valente sussurrar: desse peito, o dono sou eu.

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08/Maio/2017 - Buenos Aires - 23h32

Realidade post-mortem

     Você apareceu sete meses depois...
                                                            depois de eu já ter o coração feito pedra outra vez,
                                                            depois de eu enxergar todas minhas falhas & failures.


     ¿Cómo agir?

      a) fingir; amável, naturalmente
      b) urrar mágoas feito louca
      c) ignorar.                                                                 (urrando mágoas feito louca por dentro)
      d) não saber por não entender
      e) confirmar meu delivery, com hora e local marcados                 (pronta entrega, por favor)
X    f) responder e morrer por dentro. e fingir estar bem.
                                                                                        pra depois você sumir.
                                                                                                                            como sempre.


Meu coração é coveiro: guarda e enterra, indiscriminadamente.

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08/Maio/17 - Buenos Aires - 23h04

Muerte Poesía

A morte, eita coisa mais estranha
Nós aqui, planejando e criando
Nós aqui, fazendo agendas e planilhas
Nós aqui, crescendo raízes fortes

A morte, eita coisa estranha
Um pisco, um baque
Um rompe algo, um coração que para
Não mais respirar, não mais controlar

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08/Abril/2017 - Buenos Aires - 00h28


sábado

Útero

Quero sair, mas ficar
Me aconchegar, mas pronto levantar
Um ninho que me acolha, de onde eu posso voar

Esse vazio inomeável
De duras raízes, entranhadas
Erva daninha, acorrenta o peito

Esse vazio insustentável
Impálpavel e presente
Que espreme a alma e vai escorrendo pelos olhos...

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25/Mar/2017 - Buenos Aires, Argentina - 15h22


terça-feira

Bucaresti

I

Um intento de coragem, um retorno a velhos hábitos
Me lanço medrosa à saídas casuais por essa velha Buenos Aires.

Eu, temerosa
Corpo e fluidos partilhados entre nações e culturas
Adicta ao efêmero

Tu, erres que rolam travados
Povoando meu imaginário desse distante Leste
Olhos lânguidos, nariz comprido

Nós, colonizados e emergentes, sobreviventes aos Sonhos de Outros.

II

Me esquivo para o lado, numa reprodução de experiências passadas
Aguardo seu corpo aconchegado, formando uma concha
Intimidade passageira, breve ao adeus

Com a mão firme, confiança trêmula, afago sua mão
Mão a mão, toque a toque se dá a conexão
Intimidade passageira, breve ao adeus

Me calo, silencio os temores e anseios
Mais uma vez regida pelo Acaso, sino do Zodíaco:
Piscis, mi cura y veneno

Me calo, insatisfeita.
Avançam as horas: a luz do dia nunca dá tregua.
O Adeus presente, desconforto instalado.

III

Caminho pelo Centro, entre emoções túrbias, indefinidas
Resignação ou iluminação, agradeço o Amanhecer;
Aprecio o caminhar antes da turba e dos carros.

Boto um The Doors: essa criança abandonada em mim quer colo.
Adormeço com essa angústia... recebo mensagem sua
O Adeus já real, após intimidade passageira.

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14/Mar/17 - Buenos Aires, Argentina - 14h46