sábado

Útero

Útero

Quero sair, mas ficar
Me aconchegar, mas pronto levantar
Um ninho que me acolha, de onde eu posso voar

Esse vazio inomeável
De duras raízes, entranhadas
Erva daninha, acorrenta o peito

Esse vazio insustentável
Impálpavel e presente
Que espreme a alma e vai escorrendo pelos olhos...

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25/Mar/2017 - Buenos Aires, Argentina - 15h22


terça-feira

Bucaresti

Bucaresti

I

Um intento de coragem, um retorno a velhos hábitos
Me lanço medrosa à saídas casuais por essa velha Buenos Aires.

Eu, temerosa
Corpo e fluidos partilhados entre nações e culturas
Adicta ao efêmero

Tu, erres que rolam travados
Povoando meu imaginário desse distante Leste
Olhos lânguidos, nariz comprido

Nós, colonizados e emergentes, sobreviventes aos Sonhos de Outros.

II

Me esquivo para o lado, numa reprodução de experiências passadas
Aguardo seu corpo aconchegado, formando uma concha
Intimidade passageira, breve ao adeus

Com a mão firme, confiança trêmula, afago sua mão
Mão a mão, toque a toque se dá a conexão
Intimidade passageira, breve ao adeus

Me calo, silencio os temores e anseios
Mais uma vez regida pelo Acaso, sino do Zodíaco:
Piscis, mi cura y veneno

Me calo, insatisfeita.
Avançam as horas: a luz do dia nunca dá tregua.
O Adeus presente, desconforto instalado.

III

Caminho pelo Centro, entre emoções túrbias, indefinidas
Resignação ou iluminação, agradeço o Amanhecer;
Aprecio o caminhar antes da turba e dos carros.

Boto um The Doors: essa criança abandonada em mim quer colo.
Adormeço com essa angústia... recebo mensagem sua
O Adeus já real, após intimidade passageira.

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14/Mar/17 - Buenos Aires, Argentina - 14h46

sábado

Ritual do Café

Ritual do Café

Foi apenas outro dia na vida: acordei, descansada, organizei meu espaço como todas as manhãs. Me levanto do meu colchão posto no chão na intenção de aliviar dores; abro as persianas, velhas e de madeira. Me olho muitas vezes no espelho: reprovando e aprovando, ora minha bunda flácida, ora meus ombros que parecem despontar alguns indícios dos resultados da dieta.
Me olho nos olhos; inchados, pequenos, porém desenhados. Avalio minha pele, resultado do dinheiro gasto em cremes anti-idade, comprados exatamente para períodos: um para o dia, outro para a noite.

Um giro de 180 graus, e abro a porta da cozinha: sou golpeada por um grande bafo quente - lá fora é o Inferno sobre a Terra. Resistente, ligo o registro de gás e acendo o fogo. Separo a caneca branca comprada em uma lojinha descolada de São Paulo. Agarro o coador de pano, já encardido pelo o uso. Com uma mão busco o pote do café - café brasileiro, sem dúvidas. E outra vez então, me detenho em pensamentos sobre a quantidade.
É absurdo como ainda sonolenta, minha memória se ativa cotidianamente a relembrar comentários x de uma colega de trabalho: "minha mãe sempre disse que são duas colherzinhas cheias". Claramente tal comentário me marcou, eu que sempre duvidei das medidas. Devaneio mais um pouco, em segundo plano, sobre o ritual de meu avó ao fazer café pelas manhãs. Guardo e perpetuo muitos hábitos aprendidos na infância, menos o do preparo do café. Devaneio ainda um pouco mais, em terceiro plano, sinto uma culpa frágil por não seguir esse ritual. Talvez por isso ainda duvide quanto pó de café colocar.

Diferentemente de meus avós, não deixo a água ferver: aprendi já grande, pela internet, o ponto exato de ebulição. Me entrego aos devaneios, e sigo remontando na memória o ritual do café...

Eram já as quatro ou cinco da manhã. Meu avô que dormia na sala, abria as janelas e ficava aí, observando não sei o que. Talvez o céu, escuro por despertar. Talvez o movimento das primeiras pessoas que surgiam na rua, a caminho de suas rotinas. Ou falava com Deus. Não sei.
Minha mãe, sempre temerosa, desaprovava, dizia que meu avô espiava bandidos do bairro.
Quinze minutos após a contemplação, se dirigia o velho para a pia: enchia uma leitera velha sua com um pouco mais de um litro de água. Agarrava um filtro de plástico, onde encaixava o filtro de papel, e logo depois, completava com algumas medidas de café.

"Quantas medidas eram?", "Quantos gramas seriam? Três colheres de sopa? Ou quatro?".
Levo comigo essa dúvida, pois nunca lhe perguntei. "Vô, quantas medidas o senhor usa?". Distante e fria, nunca o consultei.
E levemente me invade essa culpa frágil, esse lamento pela oportunidade perdida. Sentimental me coloco por minutos, às vezes manhãs inteiras.
Todo esse universo e memórias se desenrolam em segundos, em frações de segundos. Tudo isso em quanto estou coando meu próprio café, em outra cidade, outro ano, sob outro espírito.
O velho, por hábito, esterilizava a garrafa térmica com água indevidamente fervida.
... Faço uma pausa num esforço de lembrar... Vertia aos poucos a água fervida, indevida, sobre o pó de café, enquanto o cheiro de café invadia o resto da casa, nos acordando: "te apressa a comprar pão quente, Patrícia!", e entra minha avó. Detenho essa memória, pois a carga é grande para apenas mais uma manhã na minha vida.

Meu café já preparei - estou a ponto de adoçá-lo. "Deveria também esquentar o café já coado?", "Não, é indevido". E assim vou reformulando a prática, desmontando o hábito, com o simples ato de passar um café.

E como meu avô adoçava o café? Com açúcar. Ele jamais usaria mel como eu, aqui, em outra cidade, outro ano, sob outro espírito.

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25/Fev/2017 - Buenos Aires, Argentina - 01h12

quinta-feira

Dinamo

A Roda gira
- já não lamento mais.

Quando abaixo, quando vazia, que farei?

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23/Fev/17 - Buenos Aires, Argentina - 14h31

sexta-feira

Nostalgia

A vida só faz sentido
Se tem nostalgia.

Nostalgia e uma taça de vinho que adentra a madrugada.

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27/Jan/17 - Buenos Aires, Argentina - 00h48



Cansada

Socialmente cansada,
E a cada momento de alívio, me surge um novo questionamento.

Minhas necessidades, suprimidas, já não são supridas -
É a sobrevivência instalada.

Me refugio nos vícios até eles virarem rotina
Mas a rotina não vicia - queima e refluxa.

Toda demonstração de felicidade é a prova do vazio
Verbalizam, fotografam, riem - já não aguento mais.
Mas minha mente e dedos seguem automáticos às respostas pois há uma sobrevivência a ser mantida.

Todas essas costuras, essas amarras
Todas essas expectativas postas, pressionadas

Meu basta sai frágil e mudo...

E todos esses sonhos a serem adiados.

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20/Jan/2017 - Buenos Aires, Argentina - 15h12

Periferia

Moto sem escapamento
Carro da cândida
Comemoração quando volta a luz

Últimos funks, voz da juventude
Olor a porro a la vuelta

Briga às 03h da manhã
Puxadinhos e muros levantados
Aqui verão se passa na calçada, com uma cerveja gelada

"É tiro?", minha mãe pergunta
"É moto", concluo

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23/Dez/2016 - Buenos Aires, Argentina - 02h19



Vila Joaniza - São Paulo, Brasil - 15/Set/2016 (MB)

Belchior

Se nossa mente positiva
Se nosso sonho bloqueado

Mas se a utopia serve para seguir caminhando
E a pausa para fazer germinar o recomeço

Mas nossa rotina, nossos medos
Mas as esperanças entregues para aqueles que dormem sobre acordos

Eu não consigo sorrir à toa,
Não há motivo para festa.
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23/Dez/2016 - Buenos Aires, Argentina - 00h47



Rest. Plaza Mayor (San Jose y Venezuela) - Buenos Aires, Argentina - 21/Dez/2016 (MB)